Uma carta aberta ao Canadá

ELISABRENNERCanadáLeave a Comment

Há uma semana, o autor Mark Manson publicou em seu site um texto fantástico chamado de Uma carta aberta ao Brasil. Um texto fantástico e que foi um soco na boca do estômago de muitos, já que ele culpa os brasileiros pela crise no Brasil. Se você ainda não leu, por favor leia!

E foi inspirado nesse texto que o blogger Pablo Marcelo publicou em seu site Uma carta aberta ao Canadá, em que ele culpa os canadenses pelo fato do Canadá ser um dos melhores países do mundo:

canada

Uma carta aberta ao Canadá

“Querido Canadá,

Mais um inverno está acabando. E daí, né?! Não é por isso, por todo esse frio e neve, que as coisas param por aqui. Também não é por isso que, infelizmente, estou te deixando para voltar para o meu país.

Assim como vários outros gringos, eu também vim para cá em busca de trabalho, qualidade de vida, segurança, igualdade social e, por tabela, respeito, principalmente à minha esposa e filhas. O que eu não poderia imaginar é que eu passaria a maior parte dos últimos anos dentro das suas fronteiras. Aprenderia muito sobre suas culturas, suas diversas línguas, seus costumes e que, no final do ano passado, minha esposa realizaria uma cirurgia cardíaca em um dos seus excelentes hospitais.

Não é segredo para ninguém que você sempre figura nas listas dos melhores disto ou daquilo pelo mundo. Entretanto, sei que nem tudo é perfeito. Existem os pesadelos econômicos, as disputas políticas, a constante questão da segurança, a pirâmide social que insiste em destoar ricos e pobres e agora, com uma possível epidemia do Zika vírus, mais recursos terão que ser destinados às pesquisas.

Durante esse tempo em que estive aqui, eu conheci muitos canadenses (e até brasileiros) que me perguntavam: “Por quê? Por que o Canadá atrai tanto assim? Por que a maioria dos países na América do Sul são como uma bomba prestes a explodir enquanto no Canadá tudo parece tão bucólico?”

No passado, eu imaginava muitas teorias sobre o sistema de governo, sobre a política de imigração, as posturas econômicas etc. Mas recentemente eu cheguei a uma conclusão. Muita gente provavelmente vai acha-la meio efusiva, mas depois de ler algumas cartas que andam postando por ai e trocar várias ideias com alguns dos meus amigos, eles me encorajaram a dividir o que eu acho com todos os outros canadenses, e brasileiros.

Então aí vai: é você, canadense.

Você é a explicação. Leia: o povo daqui como um todo.

Sim, você mesmo que está lendo esse texto pelo Canadá afora. Você é parte dessa conquista. Eu tenho certeza de que é proposital! Mas você não só é parte, como está perpetuando essa façanha todos os dias.

Não é só mérito do Trudeau ou do Partido Liberal. Não é só merecimento da sua postura financeira, dos investimentos da iniciativa privada, dos destaques na mídia internacional ou até do poder (com ressalvas) do dólar canadense.

O bonito é esta cultura. As crenças e a mentalidade que faz parte da fundação do país e que são responsáveis pela forma com que os canadenses escolhem viver as suas vidas e construir uma sociedade.

O legal é tudo aquilo que você, e todo mundo a sua volta, decidiu aceitar como parte do “ser canadense”, mesmo que isso seja até naive para alguns em certas situações.

Quer um exemplo?

Imagine que você está de carona no carro de um amigo tarde da noite. Vocês passam por uma rua escura e totalmente vazia. O papo está bom e ele não está prestando muita atenção quando, de repente, ele arranca o retrovisor de um carro qualquer. Antes que alguém apareça, ele desce e deixa um cartão no carro com um telefone.

No dia seguinte, você ouve um colega de trabalho, aquele indiano, dizendo que deixou o carro estacionado na rua na noite anterior e ele amanheceu sem o retrovisor. Pela descrição, você descobre que é o mesmo carro que seu buddybateu sem querer. Muita neve, né?! O que você faz?

A) Fica quieto e finge que não sabe de nada para proteger seu amigo? Ou

B) Diz para o cara que sente muito e que seu amigo não o encontrou, mas deixou um cartão com o telefone dele. Talvez a neve tenha “engolido” o cartão. E já passa o telefone dele, na hora;

Eu tenho certeza absoluta que a maioria dos canadenses escolheria a alternativa B. Eu também acredito que muitas pessoas, mas muitas mesmo, escolheriam a alternativa A.

Pois então, percebi aqui no Canadá que o senso de justiça e responsabilidade é mais importante do que qualquer indivíduo específico. Há uma consciência social onde o todo é mais importante do que o bem-estar de um só. E por ser um dos principais pilares de uma sociedade que funciona, ignorar isso é uma forma de egoísmo.

Eu percebo que vocês canadenses são solidários, se sacrificam e fazem de tudo por suas famílias e amigos mais próximos também. Por isso não seriam categorizados como egoístas.

Mas, além disso, eu também acredito que grande parte dos canadenses seja extremamente hospitaleira, uma vez que beneficia sua família e amigos mais próximos bem como outros membros de outras sociedades, c’est moi!.

Sabe todos aqueles políticos, empresários, médicos e pesquisadores constantemente premiados? Você já parou para pensar por que eles são reconhecidos em suas áreas? Quase todos eles fundamentam suas aptidões e competências dizendo: “Eu faria o mesmo por qualquer um”. Eles também querem viver numa sociedade igualitária, querem dar honras para qualquer outro, querem que seus filhos estudem em escolas melhores que incentivem essa prática. Minhas filhas aprenderam muito disso.

É curioso ver quando um canadense elogia outro cidadão como qualquer um da sua família, isso é normal para ele. Ele entende o altruísmo como um forma de abrir mão dos próprios interesses para beneficiar o outro, principalmente se for para o bem da sociedade como um todo.

Além disso, o seu povo também é tido como muito “certinho”, Canadá. Eu fiquei surpreso quando descobri que dizer que alguém é “certinho” por aqui não é considerado um sarcasmo como é no meu país. Esta é uma outra característica particular da sua cultura.

Algumas semanas atrás, eu e minha esposa e filhas viajamos para um famoso ponto turístico na região West de Ontário. Todo trajeto era surpreendente, como já imaginávamos, ainda mais com neve. Atravessamos Niagara on the Lake e chegamos em Niagara Falls. Foi fantástico.

Quando compartilhamos nossa percepção com alguns amigos canadenses, eles imediatamente disseram: “Ah, mas você sabe a história de como começou aquele lugar? Você chegou a conhecer aquela rua X? Você sabia que…?”.

Parece uma frase inocente, mas ela ilustra bem essa questão do orgulho: as pessoas por aqui valorizam, reconhecem, admiram e estudam aquilo que é delas muito mais do que aparentar certo interesse, ou até descaso.

É claro que aqui não é o único lugar no mundo onde isso acontece, mas mostra-se muito mais comum do que em qualquer outro país onde eu já estive.

Isso explica talvez porque os canadenses não dão tanto valor assim às roupas de grife (o que é grife?) ou jóias mais do que deveriam. Ou até contratem empregadas e babás para fazerem um trabalho que é feito por eles. Não há nada de especial nisso. Marcas, carros, jóias não destacam as pessoas nas ruas. Quem é o rico? Graças a Deus, aprendi também que aqui não se paga nada parcelado. Aquela super TV… todos podem ter e pagar por uma. No fim das contas, esse é o motivo pelo qual um canadense “pobre” sabe que tem a oportunidade e está disposto a trabalhar num Starbucks durante o verão e ter acesso à roupa de “grife”, à super TV e até uma viagem ao Brasil. Não existe esse demérito, essa cisão social — nem Casa Grande, nem Senzala.

Muitos gringos acham os canadenses “corretos” demais. Eu não concordo. Ademais, por conta disso, os canadenses são bem mais produtivos do que muita gente em outros lugares do mundo (vide: 5 da tarde tá todo mundo em casa).

O segredo é que muitos focam grande parte da sua energia na eficácia em vez de vaidade. A sensação que se tem é que é mais importante o fazer certo do que se mostrar popular ou glamouroso. É mais importante ser bem sucedido do que parecer ser bem sucedido de fato.

Essa efetividade traz felicidade. Eficácia é uma versão “Excel” da felicidade. Parece um Tetris visto de fora, é real e definitivamente dura muito.

Vocês não precisam pagar por algo um valor muito mais caro do que deveria custar só para se sentirem especiais — parece estranho, mas por isso vocês são especiais. Vocês não precisam da aprovação de outras pessoas para se sentirem importantes — parece estranho, mas por isso vocês são importantes. Vocês não precisam mentir, puxar o tapete ou trair alguém para se sentirem bem sucedidos — parece estranho, mas por isso vocês são bem sucedidos. Pode acreditar, parece estranho o que eu disse, mas é verdade.

E sabe o que é melhor ainda? Essa capacidade faz com que seu povo bata de frente com os outros. Em geral, a maioria das pessoas quer ser legal com todo mundo e acaba ou ferrando o outro pelas costas, ou indiretamente só para não gerar confronto. Mas, vocês não evitam o choque e não são menos legais por isso.

Aprendi que por aqui, se alguém está 1h atrasado (!), ninguém fica esperando essa pessoa chegar para sair. Se alguém decide ir embora e não esperar, é algo mais do que normal. Se alguém na família é irresponsável e fica cheio de dívidas, é meio que esperado que outros membros da família com mais dinheiro aconselhem essa pessoa. Se alguém num grupo de amigos não quer fazer uma coisa específica, ele tem a liberdade de fazer o que quiser, não vamos deixar esse amigo chateado. Keep going. Se em uma viagem em grupo alguém decide fazer algo sozinho, e daí…. faça seu algo sozinho.

Eu sei que não é tão fácil confrontar e ainda ser boa praça. Mas, aprendi que onde não existe confronto, não existe progresso.

Como um gringo que está atento às diversas diferenças culturais, eu acho fascinante enxergar tudo isso como uma forma de respeito e autoconsciência. Em diversas circunstâncias eu acabo assistindo seu povo estimar aqueles que tem suas próprias opiniões e são bem resolvidos e desconsiderar os que se fazem de “vítimas”.

Por um lado, quando você valoriza uma pessoa bem resolvida, você está dando a ela um incentivo para sempre melhorar e expressar suas ideias. Na verdade, você faz com que ela não fique contando com a boa vontade de alguém, mas a ensina ser responsável.

Por outro lado, quando você corrige alguém que se mostra “vitimizado”, você encoraja pessoas talentosas a continuarem criando e inovando e se expressando. Você impele o país ao desenvolvimento e cria ainda mais espaço para líderes em potencial e empreendedores buscarem seu espaço.

E assim, você cria uma sociedade que acredita que o jeito certo de se dar bem é planejando, dizendo a verdade, sendo honesto e até aprendendo com outras culturas.

De forma dura aprendi (?) que a melhor coisa que você pode fazer por uma pessoa que está sempre atrasado é ir embora sem ela. Isso me fez aprender a gerenciar o meu próprio tempo e respeitar o tempo dos outros.

Também arduamente aprendi (?) que a melhor coisa que você pode fazer com alguém que gastou mais do que devia e se enfiou em dívidas é deixar que ele fique desesperado por um tempo — só por um tempo. Esse, inclusive, foi um jeito que me fez aprender a ser mais responsável com dinheiro no futuro.

Eu não quero parecer o gringo que sabe tudo, até porque eu não sei. E Deus bem sabe o quanto o meu país está onde está (alguém já escreveu uma carta desse tipo pro Brasil).

Oh, Canadá, você é parte da minha vida para sempre. Você é parte da minha família. Você é parte das minhas histórias. Você é aquela cicatriz no peito da minha esposa. Você está no nosso coração.

E é por isso que eu sinto que preciso dividir isso com você de forma aberta, sincera, com o amor que só um amigo pode falar francamente com outro, mesmo quando sabemos que o que temos a dizer vai parecer exagerado e ufanista.

E quer mais? Vai melhorar.

Talvez você já saiba disso, mas se não sabe, eu vou ser aquele que vai te dizer: as coisas vão melhorar ainda mais nessa década.

O seu governo vai conseguir contornar a crise que se alastra pelo mundo todo, sem mudar drasticamente os hábitos diários. Os déficits internos, o impacto chinês sobre os preços das matérias primas, a queda do valor do petróleo, a expectativa de um crescimento não tão alto, a timidez do dólar canadense frente a expansão dos EUA, serão seriamente combatidos. Aqui o povo não deixa quieto não.

Todos já sabem que o preço das commodities estão extremamente baixos e não apresentam nenhum sinal de aumento num futuro próximo, isso significa menos dinheiro entrando no país. Mas, sei que a sua população é do tipo save money, e planeja o seu futuro.

Você está ferrado? Em absoluto. Os canadenses estão atentos aos Harpers, Trudeaus, Conservadores, Liberais etc. Sua Magna Carta é como uma espada de Dâmocles sobre essas cabeças. Erros e acertos já foram cometidos no passado, mas agora é continuar vivendo pelo que é certo e correto.

Sei que vocês já estão preparados para os próximos cinco, dez anos de novas oportunidades. Se você é um jovem canadense, muito do que você cresceu esperando que fosse conquistar, ainda que a crise solte seus bafos fétidos, no futuro vai estar disponível. Se você é um adulto nos seus 30 ou 40, os melhores anos da economia fazem parte do seu passado? Acredito que não, há muito ainda pela frente. Se você tem mais de 50, bem, você já viu esse filme antes, não viu?

Em algumas décadas atrás foi melhor, em outras foi pior, e a história continua. A democracia já atenuou outros problemas. Uma moeda forte já moderou vários problemas. A igualdade social também mitiga problemas. A verdade é que o problema sempre vai existir. E existe para ser solucionado por pessoas que queiram buscar soluções.

Todas as manhãs minhas filhas cantavam: “We stand on guard for thee” na escola. É esse ideal, esse paradigma, semelhante ao sol por essas terras, que embora não seja incandescente, sempre está ali, isso contagia. E a única forma em que isso se perpetua é em cada canadense que decide manter vivo esse calor dentro de si.

No movimento de tantas transposições históricas que acompanham sua vida, essa é mais um snowstorm para atravessar. E esse mindset já faz parte do seu coração e sua alma.

Você só precisa manter esse estilo de ver as coisas. Você só precisa continuar acreditando em seus padrões e objetivos, para você e para os outros. Você só precisa continuar exigindo que seu tempo seja respeitado. Você só deve continuar esperando das pessoas que te cercam que elas sejam responsabilizadas pelas suas ações. Você só deve manter como prioridade uma sociedade íntegra e com valores acima de todo e qualquer interesse pessoal, mesmo de sua família e amigos. Você só deve continuar estimulando que cada um procure solucionar seus próprios problemas, assim como você não espera que ninguém seja obrigado a solucionar os seus.

Esses são valores que são buscados diariamente pelo povo canadense. Essa é uma revolução interna que aconteceu em mim, e acredito que isso se reverbere nos milhares de gringos que estão por aqui, e se repetirá ainda nos que estão por vir.

Você tem uma alegria incomum e especial, Canadá. Foi isso que me atraiu em você muitos anos atrás e que me faz sempre voltar. Eu tenho certeza que esse povo tem a alegria que merece.

Seu amigo,

Pablo Marcelo”.

Compartilhe!
0

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *